REPRESA VARGEM DAS FLORES

 

  MUNICÍPIOS – BETIM E CONTAGEM

EQUIPE:

 

  • SITIANTE/AMBIENTALISTA - Vicente Cunha Coura

  • DEFESA CIVIL DE BETIM - Adão Calixto dos Santos

  • SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE DE BETIM - Cleide Pedrosa

  • FUNDAÇÃO EZEQUIEL DIAS - Laboratório de Microbiologia de Águas
    Maria Berenice Cardoso Martins Vieira et al.

MONITORAMENTO DA BALNEABILIDADE E DOS PROTOZOÁRIOS CRYPTOSPORIDIUM E GIARDIA DAS ÁGUAS DA REPRESA DE VARGEM DAS FLORES – MG - BRASIL.

Vicente Cunha Coura
Farmacêutico-Bioquímico. Empresário, Responsável Técnico e Diretor Administrativo de Empresa Privada de Saúde (Núcleo de Saúde Lapecco) Belo Horizonte - MG. Possui sítio há 12 anos às margens desta represa, municípios de Contagem e Betim -MG, ambientalista preocupado com este ecossistema, realizou uma parceria com a Secretaria do Meio Ambiente e Defesa Civil do município de Betim para execução deste projeto.

Maria Berenice Cardoso Martins Vieira(1)
Bióloga pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre em Microbiologia pela UFMG. Doutora em Ciência Animal (Epidemiologia e Preventiva) pela EV-UFMG. Professora de Microbiologia de Alimentos e Água no Curso de Pós-Graduação - PREPES (PUC-MG). Pesquisadora nível III da Fundação Ezequiel Dias (FUNED). Responsável Técnica pelo Laboratório de Microbiologia de Águas da FUNED.

Maria Crisolita Cabral Silva
Farmacêutica-Bioquímica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em Microbiologia pela PUC-MG. Mestre em Medicina Veterinária pela EV-UFMG. Pesquisadora nível II da Fundação Ezequiel Dias (FUNED). Responsável Técnica pelo Laboratório de Microbiologia de Alimentos da FUNED.

Rita de Cássia Goulart Soares
Bióloga pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC - MG)
Bolsista de Aperfeiçoamento Profissional pela Fundação Ezequiel Dias (FUNED)

Daniella Pedrosa Salvador
Bióloga pela Faculdade Metodista Integrada Izabela Hendrix.
Bolsista de Desenvolvimento Tecnológico e Industrial pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG)

Endereço(1): Rua Sergipe, 457 / 301 - Funcionários - Belo Horizonte - MG - CEP: 30130-170 - Brasil - Telefax: (0xx 31) 3222-8148 - e-mail: berevieira@globo.com

 

RESUMO

 

Foi realizado um monitoramento na represa Vargem das Flores, em duas etapas, no período da seca e na época das chuvas. Foi verificado o parâmetro da balneabilidade, uma vez que esta Lagoa tem uma freqüência muito grande de banhistas e praticantes de esportes aquáticos. Na segunda etapa, foram pesquisados também os protozoários, Cryptosporidium e Giardia, pois esta represa representa um manancial com um volume de 40 milhões de m3 de água para abastecimento público e se encontra em área de preservação ambiental determinada por leis em vigor definidas pelos municípios de Betim e Contagem, que recebem águas deste manancial.

PALAVRAS-CHAVE: Cryptosporidium , Giardia e balneabilidade.

 

INTRODUÇÃO

 

A idéia de desenvolver este trabalho foi inspirada pelo primeiro autor - Vicente Cunha Coura - como sitiante e morador, e como ele próprio se intitula, um ambientalista nato. A seguir, temos um relato pessoal do mesmo, com uma visão crítica e carregada de emoção, transcrito na íntegra:

"Em observações in loco, admirando atentamente a transparência à luz e tonalidade da água desta Represa, durante aproximadamente 14 (quatorze) anos; onde se descortinava uma visão da beleza natural com uma flora e fauna bastante rica, com grande quantidade de peixes, em número e tamanho. Em contrapartida, o que vem acontecendo, bem à frente dos nossos olhos nesse ecossistema até os dias de hoje é a destruição constante, contínua e impiedosa pelo homem, considerado o mais inteligente do planeta. Aquele de visão imediatista, ou o que dá as costas, e diz: "não estou nem aí, pois não me afeta", e se esquece dos seus sucessores: filhos ,netos e bisnetos. 

O enorme bando de patos pretos selvagens hoje é um minguado bando. As lindas garças brancas estão quase em extinção, se comparado à quantidade que lá habitava. As enormes traíras estão sendo capturadas por tarrafas e redes, sem lhes dar nenhuma chance de defesa, por pescadores inescrupulosos vindos de fora ou alguns do local mesmo. É sabido que espécies de pássaros ainda são pegos e mantidos em cativeiro de forma ilegal. Um triste exemplo para as novas gerações de humanos!

Em um futuro bem presente o que nos restará desta ainda beleza natural para nossos estressados olhos e mente? A água anteriormente límpida é hoje uma emulsão constituída de partículas suspensas formada pelos pequenos e grandes esgotos, principalmente, alguns afluentes. Lixo, de todo o tipo e origem, são lançados dia e noite na represa e, somente agora, ainda bem, as autoridades competentes estão identificando o problema e, com certeza, tomarão medidas urgentes no sentido de instaurar o processo de cura na nossa Represa.

Retirar o lixo da orla da lagoa é ato louvável, indispensável e necessário. No entanto, não é o tratamento da doença, mas sim dos seus sintomas. Devemos sim, retirar (reverter) ou tratar os afluentes poluentes, esgotos e dejetos humanos lançados diretamente na represa. 

Quanto mais suja a água mais caro e dispendioso será o seu adequado tratamento para torná-la potável, e maior o seu custo para que O CONSUMIDOR a tenha em seu domicilio! 

O que será deste manancial de água, o líquido mais precioso e indispensável à nossa vida?"

A seguir, infelizmente, algumas fotos revelam toda esta realidade apresentada e nos leva a refletir sobre suas conseqüências.

FIGURA 1 - Represa com seu maior volume de água mostrando toneladas de lixo trazidas pela vertente que passa pelo Bairro Icaivera - Municípios de Betim e Contagem - MG.

Esta idéia provocou uma reunião, que foi realizada na Prefeitura Municipal de Betim - convocada pela Secretária do Meio Ambiente, Sra. Cleide Pedrosa e o Superintendente da Defesa Civil, Sr. Adão Calixto dos Santos, juntamente com os moradores e sitiantes das margens da represa aqui mencionada, local onde se desenvolveu este projeto. O enfoque principal desta reunião foi a preocupação com a preservação da represa pelas autoridades e moradores presentes, do Município de Betim - MG. 

A Lagoa Vargem das Flores, também conhecida como "Várzea das Flores", situa-se na divisa entre os municípios de Betim e Contagem. Esta lagoa artificial, portanto, uma represa, tem como objetivo principal, fornecer água tratada para os municípios de Contagem, Betim e Belo Horizonte, sendo que o maior volume de água tratada é recebido por Contagem, Betim e por último, Belo Horizonte. 

A represa está inserida na área de domínio da COPASA e está a uma distância aproximada de 40 Km de Belo Horizonte. É circundada por fazendas, sítios, área de camping e algumas pousadas, sendo assim, toda a sua extensão é de propriedade privada. A extensão de sua orla é de 54Km, com um espelho d água de 5,5 Km2. O volume de água é de 40 milhões de metros cúbicos, volume este baseado na cota de 838,70 metros, sendo o nível máximo maximorum do reservatório de 840 metros de altitude. Sua profundidade máxima é de 18 metros, tendo profundidades variadas em sua extensão, considerando uma média de 6 metros. A maior parte da represa é navegável e está sob a jurisdição da Capitania dos Portos do Estado do Espírito Santo - Brasil.

Esta área de preservação ambiental é regida e normatizada por leis específicas:
No Município de Betim, leis municipais de proteção de Vargem das Flores - Lei Municipal nº 3.263/99 - Betim (21/12/1999); e no Município de Contagem, Lei Municipal nº 3.215/99 - Contagem (12/07/1999).

Os principais afluentes da represa são os Córregos Água Suja (Bairro Icaivera), Morro Redondo, Bela Vista ou Madeira e Ribeirão Betim (Apostila do Corpo de Bombeiros); sendo que, atualmente, todos eles vertem pequeno volume de água na lagoa e alguns estão perigosamente poluídos, vertendo esgoto humano e detritos de animais domésticos.

A presença de oocistos de Cryptosporidium e de cistos de Giardia nas águas superficiais, tornando-as impróprias para o consumo humano, até mesmo após seu tratamento, é uma realidade e uma inquietação para todos aqueles que trabalham com controle e vigilância da qualidade da água e com a saúde pública.

Atualmente, o controle de qualidade microbiológica da potabilidade das águas está essencialmente ligado à presença ou ausência de bactérias do grupo coliformes e dos coliformes fecais (coliformes termotolerantes e/ou Escherichia coli), seguindo padrões internacionais da Organização Mundial de Saúde. Mas, apesar da grande praticidade, a ausência destes indicadores de qualidade não garante a ausência de outros microrganismos patogênicos, mais resistentes que as bactérias, não havendo assim uma garantia sanitária da segurança microbiológica da água, em termos de saúde pública.

Preocupações mais recentes com o potencial patogênico das águas de consumo vêm se dirigindo a outras bactérias, como Campylobacter e Aeromonas, protozoários como Cryptosporidium e Giardia, além de diversos tipos de vírus entéricos. Doenças do aparelho respiratório têm sido associadas também à água, como a pneumonia transmitida pela bactéria Legionella pneumophila (Rose, 1990).

Especificamente com relação ao Cryptosporidium e à Giardia, diversos surtos de diarréia nos países desenvolvidos têm sido associados à sua presença na água, mesmo filtrada e clorada (Rose, 1990; Glicker & Edwards, 1991; Leland et al., 1993). Por isto, algumas análises têm sido realizadas nas águas de mananciais e de abastecimento para a detecção desses parasitas, de forma a se avaliar a variação dos níveis de ocorrência dos mesmos (Lechevallier & Norton, 1992).

Pesquisas recentes têm encontrado esses organismos em 98% de amostras de águas superficiais (LeChevalier & Norton, 1995) e 12% de águas subterrâneas (Hancock et al., 1998). Como esses organismos são encontrados em mananciais, existe um potencial de contaminarem águas de abastecimento se os sistemas de tratamento não forem concebidos e operados efetivamente. A passagem desses organismos para as águas consideradas potáveis tem sido sugerida como a causa de vários surtos de doenças transmitidas pelas águas nos EUA, Canadá e Reino Unido (Craun et al., 1998). 

Giardia e Cryptosporidium podem se originar de uma variedade de fontes, incluindo estações de tratamento de esgotos e efluentes de tanques sépticos, escoamentos de tempestades, terras adubadas com esterco, ressuspensão de sedimentos do fundo de rios, entradas diretas de animais domésticos e selvagens nos mananciais. As chuvas parecem aumentar as concentrações desses protozoários nos cursos d'água. A maioria dos surtos de criptosporidiose de veiculação hídrica ocorreu durante ou após as chuvas. A ocorrência de oocistos na água é geralmente intermitente e não está associada com nenhuma estação (Atherhold et al., 1998; Rose et al., 2000).

No Brasil, o tema também tem despertado a atenção do meio técnico-científico. Recentemente, foi introduzido na atualização da legislação que estabelece o padrão de potabilidade e os procedimentos relativos ao controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano - a Portaria 1469/2000 - a pesquisa destes protozoários como uma meta a ser implantada pelas Estações de Tratamento de Água e órgãos de vigilância sanitária e epidemiológica (Ministério da Saúde, 2001). Entretanto, pouco se tem registrado no país sobre a real extensão do problema, incluindo informações epidemiológicas e de qualidade parasitológica da água (Bastos et al., 2001). 

 

OBJETIVOS

 

Monitoramento da represa Vargem das Flores para alertar a sociedade e as autoridades competentes no sentido de preservar este manancial de água que abastece, em ordem de importância pelo volume de água, as cidades de Contagem, Betim e Belo Horizonte; visando, concomitantemente, a segurança dos banhistas e a preservação deste ecossistema como um todo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

 

Após contatos realizados com a Fundação Ezequiel Dias - FUNED - em Belo Horizonte, MG, onde funciona o Laboratório Central de Minas Gerais do Ministério da Saúde, Referência Oficial da Secretaria Estadual de Saúde de MG; foi solicitado, através da Superintendência da Defesa Civil de Betim, que as análises das águas fossem realizadas nessa Instituição.

As análises microbiológicas das águas, para caracterização do parâmetro da balneabilidade, foram realizadas inicialmente, no Laboratório de Microbiologia Geral e, posteriormente, no Laboratório de Microbiologia de Águas, da Divisão de Vigilância Sanitária, da Fundação Ezequiel Dias (FUNED). 

As coletas das amostras foram realizadas pelo primeiro autor deste projeto e dois auxiliares (Figuras 3 e 4). Foram coletadas amostras de aproximadamente 200mL, de todos os pontos definidos pelo plano amostral, que foram identificados em bolsas plásticas estéreis apropriadas, cedidas pela FUNED, seguindo-se as instruções do Manual de Coleta para Exames Microbiológicos de Águas, dessa Instituição. As amostras foram transportadas até o Laboratório em caixas isotérmicas com gelo químico, conforme recomendações técnicas. E para as análises dos protozoários, Cryptosporidium sp e Giardia spp, foram coletados 10L de água em galões apropriados, que também foram transportados no gelo, até o Laboratório.

O estudo foi realizado em duas etapas, período da seca e período das chuvas.

A localização dos pontos de coleta foi definida com base nas principais vertentes que deságuam na represa, de acordo com os locais de maior afluxo de banhistas e atividades aquáticas recreativas. Em anexo, pode ser consultado um mapa onde estão assinalados todos estes pontos escolhidos ou através da Figura 5.

Descrição resumida dos pontos onde se processaram as coletas das amostras de água, no período da seca:

Ponto A1 - às margens da represa, após o córrego Água Suja, oriundo do Bairro Icaivera, ter desaguado na bacia pluvial. Chegam anualmente, também por este afluente, lixo de toda a natureza, milhares de garrafas de plástico do tipo pet, plásticos diversos, animais mortos em decomposição, etc. - Municípios de Contagem e Betim.

Ponto A2 - do próprio córrego anterior, oriundo do Bairro Icaivera, cerca de 10 metros antes de ter desaguado na represa - Municípios de Contagem e Betim.

Ponto B - às margens da represa, local de grande movimentação de banhistas e embarcações aquáticas, onde se instalaram sem infra-estrutura básica, barracas às margens da represa - Município de Contagem.

FIGURA 3 - Um dia de coleta de amostra de água com muita chuva, pelo autor (morador / sitiante) da Represa.

FIGURA 4 - Os dois auxiliares das coletas das amostras. O primeiro segurando uma bolsa plástica utilizada na coleta para as análises microbiológicas; e o segundo, fazendo a coleta propriamente dita.


FIGURA 5 - Mapa da localização dos pontos de coletas e da verificação das condições de balneabilidade das amostras de águas. 

LEGENDA:

Localização dos pontos de coletas:
1a Etapa - período da seca - pontos representados por um círculo;
2a Etapa - período das chuvas - pontos representados por um quadrado;

Verificação da Balneabilidade: a presença das setas é indicativa de água "Imprópria"
1a Etapa - período da seca - só a seta;
2a Etapa - período das chuvas - seta dentro de um quadrado;


Ponto C - às margens da represa, outro local de grande movimentação de banhistas e embarcações aquáticas, onde se instalaram sem infra-estrutura básica, outras barracas às margens da represa - Município de Contagem.

Ponto D - último ponto navegável dirigindo-se para a cabeceira da represa no sentido de Contagem, até onde foi possível o acesso pela embarcação utilizada na coleta das amostras de água.Este ponto representa, neste projeto, a reunião das águas dos afluentes vindos da cabeceira - Município de Contagem.

Ponto E - local de maior movimentação de embarcações aquáticas e menor de banhistas - Município de Contagem.

Ponto F - ponto onde deságua na represa uma pequena vertente. Há freqüência de banhistas e pouco movimento de embarcações - Município de Betim.

Ponto G - ponto onde deságua na Represa o Córrego Bela Vista ou Madeira; local de grande movimentação de banhistas e de embarcações aquáticas - Município de Contagem

Ponto H - ponto de movimentação de banhistas e embarcações aquáticas, próximas ao Bairro Cruzeiro do Sul - Município de Betim.

Ponto I - próximo a local de movimentação de banhistas, trajeto de embarcações aquáticas, e próximo a vários sítios, estes com completa infra-estrutura básica - Município de Betim.

Ponto L1 - próximo ao bairro Tupã, onde a densidade demográfica tem aumentado muito - Município de Contagem.

Ponto L2 - vertente também oriunda do Bairro Tupã, córrego Olaria do Chiqueiro - Município de Contagem.

No período chuvoso, após uma avaliação dos resultados obtidos na primeira etapa, optou-se por manter o monitoramento dos pontos onde foram caracterizadas águas impróprias para recreação de contato primário, pontos A (A1 e A2) (Figura 6) e D (Figura 7). Os locais de maior freqüência de banhistas e embarcações aquáticas, pontos B e C. Para verificar também se com as chuvas haveria uma movimentação das águas, e conseqüentemente, um arraste de suas contaminações. Por isso, alguns pontos de amostragem foram mantidos e outros foram criados. A seguir a descrição desses pontos utilizados na segunda etapa, durante o período chuvoso:

Ponto A3 - foi criado para verificar se a contaminação do córrego Água Suja, oriundo do Bairro Icaivera (ponto A2), já confirmada no deságüe na Lagoa (ponto A1), movimentaria em direção ao centro da Lagoa.

Ponto I - mantido para verificação da contaminação do Ponto A1 e A2.

Ponto E - mantido para verificação se a contaminação do ponto D movimentaria arrastando a contaminação.

FIGURA 6 - Ponto "A" - Córrego Água Suja, oriundo do Bairro Icaivera, e o seu deságüe na Represa, já com instalação de grande assoreamento.


FIGURA 7 - Ponto "D" - Assoreamento acontecendo continuamente, podendo-se destacar a água barrenta em contraste com a água ainda azulada da Represa.

Ponto F - mantido para verificar se a potencial contaminação de currais de gado, presentes próximos à represa, poderia ser fonte de contaminação de protozoários, com o arraste dos estrumes pelas chuvas.

Ponto M - foi criado, para verificação do deságüe do córrego Boa Vista, próximo a ele.

Ponto N - foi criado, pela proximidade da captação de águas pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA).

Alguns pontos, ainda foram escolhidos, para que fossem realizadas pesquisa dos protozoários, Cryptosporidium e Giardia, muito importantes em mananciais que servem como abastecimento de águas potáveis, principalmente, no período chuvoso quando os sedimentos das lagoas são revolvidos provocando uma grande turbidez nas águas. 

A metodologia utilizada para quantificação dos coliformes totais e Escherichia coli foi a do substrato cromogênico em Cartelas Quanty-tray, IDEXX(, onde os resultados são lidos simultaneamente, com 24 horas após a inoculação. Este método foi padronizado pelo Standard Methods of Water and Wastewater (APHA, 1998).

Como não existe ainda uma padronização da metodologia de pesquisa dos protozoários Cryptosporidium sp e Giardia spp pelo Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (APHA, 1998), tem sido adotado o método da floculação com carbonato de cálcio, por ser simples, confiável, econômico, utilizando o que se tem de mais básico em termos de equipamentos e requerendo consideravelmente menos trabalho do que outros métodos. Além disso, os resultados obtidos por Vesey et al. (1993) demonstraram que o método é eficiente, com taxas de recuperação dos oocistos de águas de rio, águas potáveis e deionizadas, contaminadas artificialmente, acima de 68%.Portanto, neste estudo foi utilizado esse método.

 

RESULTADOS

 

No período da seca, foram realizadas um total de 72 coletas de amostras de água, sempre no horário da manhã, em 12 locais distintos, e com repetição de seis vezes do mesmo local, conforme preconiza a Resolução CONAMA nº 274 / 2000 (CONAMA, 2000), com republicação pelo DOU em 08/01/2001 e 25/01/2001, Art.2º, águas destinadas a balneabilidade.

De acordo com a Resolução CONAMA nº 274 / 2000, as águas destinadas a balneabilidade, ou seja, as águas utilizadas para recreação de contato primário, têm sua condição microbiológica avaliada nas categorias de própria e imprópria. As águas consideradas próprias podem ainda ser subdivididas nas categorias: Excelente, Muito Boa, Satisfatória. Isto depende da quantificação dos parâmetros microbiológicos analisados, coliformes termotolerantes ou Escherichia coli, encontradas nas análises efetuadas nas cinco semanas consecutivas de um mesmo ponto.

 

Local

das amostras

1ª semana

02/05/2002

2ª semana

09/05/2002

3ª semana

15/05/2002

4ª semana

27/05/2002

5ª semana

03/06/2002

6ª semana

26/06/02

Conclusão

NMP/100mL

NMP/100mL

NMP/100mL

NMP/100mL

NMP/100mL

NMP/100mL

CT

EC

CT

EC

CT

EC

CT

EC

CT

EC

CT

EC

 

A1

53.000

1.000

66.000

7.500

12.000

1.000

> 10.000

1.000

945.000

13.700

6.400

2.000

Imprópria

 

A2

99.000

20.000

660.000

53.000

78.000

3.100

>10.000

1.000

47.800

5.300

36.500

12.400

Imprópria

 

B

9.200

100

4.800

100

7.500

1.000

>100

>10

1.000

10

30.000

3.000

Própria

 

C

10.000

1.000

8.700

420

5.900

100

>100

100

3.100

10

7.500

200

Própria

 

D

1.000

1.000

74.000

3.000

8.300

870

>1.000

200

40.600

11.100

5.300

100

Imprópria

 

E

1.000

1.000

10.000

1.000

2.700

10

>1.000

10

6.400

200

0

0

Própria

 

F

10.000

1.000

>20.000

2.200

7.400

200

>10.000

10

5.300

10

1.650

31

Própria

 

G

10.000

1.000

31.000

0

5.300

0

>100

100

100

10

2.000

0

Própria

 

H

230

20

1.500

100

3.100

0

>1.000

10

870

0

2.000

0

Própria

 

I

42.000

1.000

9.900

2.000

8.700

10

>1.000

10

3.400

10

1.300

0

Própria

 

L1**

NFR*

NFR*

75.000

950

7.000

310

>1.000

100

2.680

0

530

0

Própria

 

L2***

NFR*

NFR*

2.000

42

>200

0

5.300

271

4.200

100

NFR*

NFR*

Própria

 

 

 

26/06/2002

08/07/2002

24/07/2002

24/07/2002

 

 

 

CT: Coliformes totais

EC: E. coli

* NFR: Não Foi Realizado.

** Só foram realizadas 5 coletas.   ***Só foram realizadas 4 coletas, sendo que 2 coletas foram realizadas no mesmo dia (verificar as datas).

 

ANÁLISES MICROBIOLÓGICAS DA LAGOA VARGEM DAS FLORES

DE ACORDO COM O PARÂMETRO DE BALNEABILIDADE  (2ª ETAPA)

 

 

Local

 das amostras

1ª semana

21/01/2003

2ª semana

28/01/2003

3ª semana

11/02/2003

4ª semana

18/02/2003

5ª semana

24/02/2003

6ª semana

11/03/2003

7ª semana

18/03/2003

8ª semana

24/03/2003

 

Conclusão

NMP/100mL

Oocistos/ L

NMP/100mL

NMP/100mL

Oocistos/ L

NMP/100mL

NMP/100mL

NMP/100mL

NMP/100mL

NMP/100mL

CT

EC

Crypto

Giardia

CT

EC

CT

EC

Crypto

Giardia

CT

EC

CT

EC

CT

EC

CT

EC

CT

EC

A1

59.100

200.500

40

0

8.310

870

3.060

640

-

-

20.050

5.040

5.600

870

-

-

-

-

-

-

Imprópria

A3

14.450

1.240

-

-

2.880

530

2.540

100

-

-

7.820

1.370

3.240

530

-

-

-

-

-

-

 

Própria

B

5.600

100

-

-

2.880

0

2.070

100

-

-

6.240

100

1.640

0

-

-

-

-

-

-

 

Própria

C

2.380

100

-

-

2.070

0

200

0

-

-

5.040

100

1.780

0

-

-

-

-

-

-

 

Própria

D

101.300

28.800

200

0

16.520

1.370

2.700

530

-

-

12.980

2.880

16.520

640

-

-

-

-

-

-

 

Própria

E

>200.500

45.300

-

-

12.980

2.880

4.290

310

-

-

6.240

750

5.600

310

-

-

-

-

-

-

 

Própria

F

-

-

-

-

-

-

8.310

100

2,1

0

-

-

6.970

200

2.050

100

-

-

-

-

 

Inconclusiva

I

-

-

-

-

-

-

4.290

0

-

-

3.840

0

1.500

0

109.100

0

165,2

3,1

-

-

 

Própria

M

4.780

100

-

-

4.780

100

3.060

420

-

-

5.910

990

5.310

310

20.050

200

-

-

-

-

 

Própria

N

-

-

-

-

-

-

1.500

0

8

0

-

-

420

0

16.520

0

20.050

0

10.910

0

 

Própria

 

CT: Coliformes  Totais

EC: E. coli

Crypto: Cryptosporidium sp

Giardia: Giardia sp

Na Tabela 1 estão apresentados os resultados obtidos nos diversos pontos coletados durante um período de seis semanas consecutivas, excetuando-se os pontos, L1 com cinco análises e o ponto L2 com apenas quatro análises, da primeira etapa, período da seca. 

Os resultados obtidos nas análises efetuadas nos pontos A1, A2 e D permitiram classificar as águas deste local como sendo de categoria "Imprópria", pois mais de 80% do conjunto de amostras obtidas em cada uma das cinco semanas anteriores, colhidas no mesmo local, apresentaram valores para Escherichia coli maiores que 800 (NMP/100mL).

O ponto A2 caracterizou que a contaminação estava presente no córrego que deságua na represa contaminando-a, confirmado pelo observado no ponto A1, já dentro da própria Lagoa. O outro ponto que também deu "impróprio", o ponto D, representa a reunião das águas dos afluentes vindos da cabeceira, no Município de Contagem, confirmando o deságüe de esgotos afluentes ao local.

É importante salientar que na Resolução CONAMA 274/2000, só é considerado o parâmetro microbiológico Escherichia coli ou coliformes termotolerantes para a avaliação da conformidade com a balneabilidade. A Resolução CONAMA 20/1986, que também faz consideração quanto à balneabilidade e classifica as águas em classes, considera não só estes parâmetros como também os coliformes totais.

Na segunda etapa, observando o período chuvoso, foram obtidos os resultados que estão apresentados na Tabela 2. Pelo parâmetro contemplado pela Legislação vigente, até 800 (NMP/100mL) de Escherichia coli, em 80% do conjunto de amostras obtidas em cada uma das cinco semanas anteriores, colhidas no mesmo local, somente o ponto "A1" apresentou-se como "Impróprio" para recreação de contato primário. No entanto, é preciso que seja observado que o ponto "D" apresentou na primeira semana uma quantidade altíssima de Escherichia coli e ainda apresentou um elevado número de oocistos de Cryptosporidium sp.
O resultado para Cryptosporidium sp pode ter sofrido influência da quantidade muito grande obtida de sedimento na amostra, o que pode, inclusive, alterar as leituras das análises.

 

DISCUSSÃO

 

A correlacao entre os períodos de seca, diminuicao gradativa do volume de agua, e o período das chuvas, aumento gradativo do volume de agua, podem ser observados onde ocorre o fenômeno do deságue dos principais afluentes da represa. Os que causaram maior impacto com relaçao à poluicao de toda a natureza, foram os pontos denominados por "A" ("A1"e "A2") e o ponto "D". Em alguns afluentes de menor porte o fenômeno deve ser o mesmo, guardadas as devidas proporções.

No período da seca, o volume de água da represa diminui aparecendo em sua orla uma "praia" que, dependendo da profundidade do local se alarga desde alguns metros até 20 metros ou mais.
Principalmente nos pontos acima citados, "A" e "D", a vegetação da orla lá existente funciona como um tipo de "tela" que vai promovendo no decorrer deste período uma acumulação, um depósito de lixo, que vai retendo grande quantidade de todo tipo de detrito que aí chega (Figuras 8 e 9).

No período das chuvas, à medida que a represa vai retomando seu volume de água e recobrindo esta "praia", a água ressuspende todo este lixo, liberando-o da vegetação e lançando-o, em toneladas, para o interior da represa, de acordo, principalmente, com o sentido dos ventos e da correnteza da água.

Parte deste lixo, obviamente aquele que flutua, é arrastado até a orla da represa e aí em decorrência das chuvas e do movimento espontâneo da água, aquele que é permeável se encharca e afunda, definitivamente. Quanto às incontáveis garrafas de pet, estas se enchem de água, e favorecidas pelo seu formato rolam para locais mais profundos, onde se estima, ficarão por mais de seis gerações (400 anos). Desta forma, quando se observa a represa no início e depois das chuvas, o que se vê é uma "aparente limpeza", que nada mais é, que o resultado do depósito definitivo de todo este lixo no fundo da mesma.

Outro tipo de problema que acontece a poucas centenas de metros da represa é a atividade de uma mineração em um morro. Nuvens de poeira são formadas pela dinamitação da pedreira, e fortes ondas de impacto no solo, que se propagam até as residências circunvizinhas, provocando uma poeira que cobre tudo que estiver por baixo dela (Figuras 10 e 11).

Por outro lado, temos bons exemplos, como a Prefeitura de Betim, que promove a limpeza desses lixos periodicamente, se preocupa com o reflorestamento da orla da represa, e faz um trabalho educativo, colocando placas alertando a população da importância da preservação da represa e da natureza, em geral (Figuras 12 e 13).

E, ainda temos pessoas conscientes, como alguns moradores da região que, em trabalhos de mutirão como voluntários, também promovem a limpeza da represa, colaborando para se ter um ambiente mais saudável evitando doenças de veiculação hídrica como gastroenterites e hepatites do tipo A e C (Figuras 14 e 15).

FIGURA 8 - Lixo preso à vegetação durante a fase de baixa da represa; à medida que o volume de água aumenta, esse lixo se solta e se espalha por toda a represa.

FIGURA 9 - Pescadores, adultos e crianças, tentando buscar seu lazer em meio ao lixo, às margens da represa; vertente do Bairro Icaivera - Municípios de Contagem e Betim.

FIGURA 10 - Mineração em atividade, em um morro próximo à represa.

FIGURA 11 - Nuvem de poeira provocada pela dinamitação da pedreira, cobrindo de poluição a represa e as residências circunvizinhas.

FIGURA 12 - Equipe de funcionários da Prefeitura de Betim realizando a limpeza periódica dos lixos trazidos pelos afluentes da represa e por visitantes que não respeitam a natureza.

FIGURA 13 - Equipe de funcionários da Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura de Betim, promovendo o reflorestamento da orla da represa.


FIGURA 14 - Trabalho voluntário dos moradores da região de Betim, próximos à Igreja de São Sebastião, retirando lixo da represa, em regime de mutirão.

FIGURA 15 - Amontoado de lixo retirado da represa pelos moradores.

 

CONCLUSÕES


De acordo com os resultados encontrados nesse estudo podemos concluir que:

* As águas dos afluentes que deságuam próximo aos pontos "A" e "D" estavam "Impróprias" para a recreação de contato primário;
* As águas do córrego Água Suja apresentaram níveis de contaminação muito elevados;
* No período das chuvas há uma variação muito grande nos níveis de contaminação;
* A constatação da presença dos oocistos de Cryptosporidium sp, próximo ao ponto de captação de águas pela COPASA, deve servir de alerta;

Observações apreciadas que permitem levantar alguns aspectos que colocam em risco este manancial de água:
- Esgotos que são lançados diretamente na lagoa;
- Construções lançando esgotos diretamente na lagoa;
- Bairros em bacias que deságuam na lagoa;
- Impacto na orla da lagoa: assoreamento por falta de vegetação natural, presença de queimadas (muitas vezes, negligenciada), desmatamentos (sem reposição), atividade de mineração próxima, ondas de impacto no solo que se propagam até as residências circunvizinhas e da barragem (local de contenção de todo o volume da água da lagoa).
- Dados recentes apontam a possibilidade de surgirem grandes adensamentos populares, particulares ou públicos, formando verdadeiras "praias de lazer" de balneabilidade, num manancial cuja principal finalidade deveria ser o abastecimento de água para consumo humano.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 
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